Clique demorado



Na oficina de fotografia, alunos tiram fotos com latinhas

por Marina Lemos

foto: Nathalia Levy

Quem passava em frente à CPM no sábado à tarde, via um grupo de onze estudantes desconfiados, cada um com uma latinha de alumínio na mão. Se resolvesse passar mais um tempo observando o grupo, o passante veria as pessoas se espalhando e analisando portas, janelas e árvores, para depois colocarem as latinhas apoiadas em alguma superfície. Logo, ficavam ali, parados, como que esperando algo mágico acontecer enquanto cantarolavam. Mas o que certamente esse observador não veria seria a série de fotografias que resultaram do ritual. A oficina “Por um projeto foto-político de intervenção na cidade” deixou, além de um amontoado de retratos diferentes da UFRJ, uma porção de reflexões aos estudantes.

Logo no primeiro dia, a sexta-feira, o professor da UFRJ e da UFF Dante Gastaldoni apresentou os objetivos da oficina. “Queremos mostrar um pouco da Escola de Fotógrafos Popular da Maré e fazer vocês verem outro lado da fotografia”, declarou misterioso. A escola, fundada em 2004 por iniciativa de João Roberto Ripper tinha um objetivo bem traçado: dar ao morador da favela o conhecimento e o material necessário para que ele retratasse sua própria realidade, de um modo diferente da imagem das favelas que vemos diariamente na grande mídia.

O curso passou por períodos difíceis. Em vários momentos, faltou patrocínio. Mas muitos de seus alunos – em média trinta por ano – se tornarem excelentes fotógrafos e tiveram seus trabalhos reconhecidos na imprensa e em exposições internacionais. “Às vezes a gente está tão acostumado com a nossa realidade que não percebemos o quão impressionante uma foto da favela pode ser para alguém que mora em Londres”, contou Léo Lima, um dos antigos alunos da escola e monitor da oficina.

Léo faz parte do Favela em Foto, grupo formado em 2009 por ex-alunos da escola que perceberam a pequena quantidade de material sobre as favelas cariocas vindo da própria favela. A partir de plataformas multimídias, o grupo tenta retratar em seu blog o dia a dia dos moradores de favelas do Rio de Janeiro.

No segundo dia, os alunos aprenderam a tirar fotos em pinhole. As latas de leite em pó e achocolatado trazidas pelos alunos passaram por um processo que incluía cobrir seus interiores com cartolina preta e furar sua superfície com uma pequena agulha, para logo ganharem o status de camêras fotográficas. “Nunca pensei que um dia estaria tirando uma foto com uma lata”, exclamou Anna Frangipani, aluna da UFRJ. Depois de prontas as câmeras, os estudantes partiram para explorar o campus da universidade para tentar captar alguma imagem marcante. “O difícil do processo é que nós não podemos deixar o orifício por onde entra a luz aberto tempo de mais, nem de menos”, desabafou Mariana Andrade, também da UFRJ. Para controlar a exposição, Dante lhes aconselhou a cantarolar alguns “tralalás” – mas o resultado nem sempre era preciso.

Os estudantes também acompanharam o processo de revelação no laboratório de fotografia da faculdade. Apesar de muitas saírem escuras ou claras demais, várias ficaram boas. Entre cotoveladas e gritos de euforia ao verem suas fotos aparecerem gradualmente no papel encharcado pela química, ou alunos receberam seus certificados e um convite: que continuassem, afinal, fotografando com suas latinhas – e cantarolando.