Panelaços online



Como fazer política real no mundo virtual

por Nathalia Levy

O relógio da CPM marcava 15h30 em ponto e apenas uma pessoa ocupava as sete cadeiras da sala do Pontão da Eco, enquanto aguardava o início da oficina de Webativismo. Uma rápida visita às salas onde aconteciam as outras três oficinas revelou que o sábado ensolarado acabou prejudicando o comparecimento dos congressistas às atividades. Os oficineiros estavam presentes e o equipamento funcionando. Faltava, no entanto, o público.

Aos poucos, no entanto, ficou claro que nem todos os ausentes desfrutavam a areia branca das praias cariocas. Tratava-se mesmo do típico atraso carioca. Pouco depois das 15h40, outros cinco participantes já dividiam a sala com Gustavo Barreto, um dos fundadores da revista Consciência.Net, jornalista das Onu e doutorando na Escola de Comunicação da UFRJ. Gustavo pediu que os presentes lhe explicassem o interesse no tema – e não foi surpresa quando todos revelaram profundas preocupações sociais aliadas a uma curiosidade quanto à possibilidades de intervenção no mundo virtual.

Pouco tempo depois, mais três atrasados se juntaram ao grupo: eram agora por oito cabeças interessadas em fazer a diferença pela grande rede. O número estava começando a melhorar, porém ainda longe de atingir os 17 inscritos. Gustavo logo tratou de analisar separadamente a web e o ativismo. O segundo termo, por exemplo, foi citado por Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido: aquilo que pode carregar a não-reflexão de que toda ação precisa. “É como se o ativismo fosse um botão, e nós simplesmente o apertássemos para que ele passasse a funcionar”, considerou Gustavo. Para ele, o ativismo é toda ação que envolve atividades conjuntas da sociedade civil, o que pode acarretar graves problemas quando movimentos que não estão acostumados a conviver se juntam em prol de um mesmo ideal.

Entre o material trazido pelo pesquisador, organizadamente agrupados em uma pasta com o nome “SBPJor” em seu computador pessoal, muitos vídeos, algumas fotos e sua dissertação de mestrada, que fundamentou sua fala na oficina. A essa altura, mais dois jovens já haviam se juntado ao grupo. Um vídeo que mostrava soldados israelenses armados e palestinos portando pedras chocou os presentes, abrindo a discussão sobre direitos humanos, visivelmente a área que mais interessa Gustavo.

“Thomas Jefferson já dizia que os direitos humanos eram verdades autoevidentes, logo não possuem definição, todo muno sabe ou imagina o que são, quais são e que se formaram de forma espontânea”, analisou. “E já explicarei o que essa história de direitos humanos tem a ver com webativismo”, emendou animado. O vídeo seguinte mostrava cenas da recente ocupação de Wall Street. Lá, cidadãos – muitos deles historicamente excluídos -conseguiram ter voz. Com uma linguagem bem diferente e humanizada, as imagens trouxeram inspiração ao grupo.

E quando se fala em cyberativismo é impossível não citar o WikiLeaks e suas consequências: uma história em que web, ativismo e direitos humanos são os personagens principais. Até o presidente Lula com “toda sua solidariedade ao Wikileaks”, entrou no debate provocando boas risadas, mas também reflexões importantes. “O WikiLeaks provocu três tipos de reações: as políticas, no sentido ruim, as despreparadas e as boas, mas inocentes, como no caso do ex-presidente”, pontuou Gustavo. Ainda sobre o site, explicou todos os bastidores: do desejo do servidor de fechar a página e não poder por ser movido a dinheiro até a parceria entre empresas de cartões de créditos para acabar com as doações que apoiavam Assange, repreendida pelo grupo de hackers Anonymous.

O tempo já estava acabando mas o grupo, em plena interação, não parecia querer o fim da oficina. Antes de fechar o dia, a oficina e a própria SBPJor – as oficinas da Meio a Meios, a semana de jornalismo da UFRJ, terminaram depois do encerramento oficial do encontro-, uma das últimas considerações de Gustavo foi sobre o fenômeno crescente da midiatização, explicando que há várias ações ocorrendo pelo mundo, mas é transversal a vontade de gravar e divulgar. “Essa é uma ferramente eficaz. É o terceiro olhar, o olhar do observador”, explicou.

“O jornalismo é muito chato, com poucas pessoas falando o que é política boa ou política ruim e agora há uma reação a partir da internet”, considerou enquanto passava um vídeo estrelado por Rafinha Bastos, que ensina como ser um repórter de sucesso de uma maneira cômica e irônica. Daí a fala de Gustavo quando diz que é importante ter sensibilidade nessa nova forma de praticar jornalismo, principalmente quando atrelada ao webativismo. “Estamos falando com amigos, com pessoas que sentem. Há um processo humanístico que precisa ser transposto para o jornal durão do século XX que ainda está entre nós.”

Mankind is no Island foi o penúltimo vídeo a ser exibido na salinha, que começava a se despedir, com promessas de manter contato criando uma lista de e-mails. Estavam todos visivelmente tocados pelo vídeo e por outro que o seguiu, Mineria a cielo abierto. “Webativismo é olhar para os problemas sociais e se utilizar das tecnologias”, finalizou o pesquisador que conseguiu, em apenas três horas, abrir e fechar questões que ainda servirão de tema para muitos outros debates.