Salaverría: ‘Minha pesquisa é uma autocrítica’


S´bado, 5 de novembro de 2011 – 17:42


Elias Machado diz que Universidade não deve preparar aluno para grande mídia

por Marina Lemos e Nathalia Levy

foto: Mathilde Molla

Na manhã de sábado, o auditório do CFCH recebeu os professores Ramón Salaverría, da Universidade de Navarra, e Elias Machado, da UFSC. Para um auditório cheio, eles afirmaram que o ensino e da  pesquisa jornalística ainda estão muito presos aos antigos paradigmas e carecem de uma visão multidisciplinar voltada também para os meios digitais.

Por isso mesmo, logo no início de sua fala, Salaverría avisou que não seria politicamente correto nem indulgente, e pediu para que os pesquisadores presentes não levassem os argumentos para o lado pessoal. “Minha pesquisa também é uma autocrítica”, assumiu.

“Os jornalistas veteranos têm receio dos novos meios, e as universidades, por sua vez, demoram em se adaptar a eles, formando jornalistas desatualizados”, criticou o professor, que fez questão de lembrar que as universidades não devem ser cursos técnicos, mas um centro para desenvolver o pensamento e compartilhar ideias.

De acordo com Salaverría, o ciberjornalismo não é uma disciplina tecnológica. “Ele recebeu essa denominação porque as tecnologias eram uma novidade, mas isso já deveria ter sido superado”, pontuou. O importante para ele não é ensinar a manusear as plataformas e as ferramentas digitais, mas explorar e adotar os hábitos éticos e as características particulares do novo meio. “Só assim o aluno aprende a exercer um jornalismo de qualidade em qualquer situação”, garantiu. “Temos que parar de ensinar ferramentas tecnológicas e começar a ensinar usando o que elas têm a oferecer.”

Para Elias Machado, uma escola de comunicação não deve se ater a formar jornalistas, mas também a formar cidadãos. “É preciso pensar o contexto social”, disse. “Além das mudanças políticas e sociais que estamos passando, sofremos também um processo de midiamorfose, um conjunto de mudanças caracterizado pela descentralização da produção, pelo crescimento do jornalismo local e pela digitalização dos meios.”

O pesquisador enumerou as deficiências nos cursos de jornalismo. Para ele, muitas universidades se preocupam em formar profissionais para os grandes meios de comunicação, quando na verdade “80% dos jornalistas não trabalham para esses meios”. Além disso, criticou a falta de um currículo mais flexível e multidisciplinar.

“Os professores parecem mais preocupados em criar matérias para garantir seu emprego do que em formar bons comunicadores”, atacou Machado, para surpresa da plateia. Ele criticou o fato de muitos docentes não serem pesquisadores nas áreas que ensinam. “Se o professor pesquisa telenovela é melhor que ele dê uma aula relacionada a isso, e não uma aula de redação”, complementou.

Segundo Machado, outra deficiência está nos meios de circulação da notícia. “Se pensa muito no jornalismo como produção e consumo e pouco nele como circulação”, afirmou. “Não da para ignorar a diferença na circulação quando se trata de um jornal impresso ou de um blog.”

Sobre as possíveis ameaças que os meios digitais podem oferecer ao jornalismo, Machado afirmou que devemos pensar o jornalismo como uma instituição social com uma função indispensável para a comunidade. “O jornalismo não vai acabar no momento em que os profetas anunciarem”, afirmou. “Ele vai acabar no momento em que se tornar inútil para a sociedade.”



Jornalismo de risco


S´bado, 5 de novembro de 2011 – 13:14


Comunicação ambiental virou campo de bala perdida

por Andressa Guerra

foto: Mathilde Molla

Eram pouco mais de três e meia da tarde de sexta-feira e Fabrício Ângelo preparava os últimos ajustes para começar a oficina de comunicação ambiental, em um dos laboratórios da CPM.  Enquanto instalava as apresentações em powerpoint no computador da sala – depois de pedir ajuda a um dos funcionários -, os ouvintes chegavam e iam se acomodando nas cadeiras. “Se tiverem qualquer dúvida ou quiserem falar, fiquem à vontade” avisou, com a voz cheia de um sotaque indistinguível.

Pelo número de presentes, não dava para dizer que a oficina tinha o segundo maior número de inscritos da programação. Eram aproximadamente seis pessoas assistindo, enquanto na de fotojornalismo, no andar superior, alunos se apertavam no pequeno estúdio fotográfico. “O jornalismo ambiental não é um campo de muito destaque. Vender pautas é um sufoco, porque ninguém quer publicar uma notícia de algo que só vai ter efeito daqui a cem anos”, justificou com a voz mansa o jornalista e professor da Fiocruz. “As pessoas não se sentem tão ameaçadas.”

A saída normal é escandalizar. “Para ganhar espaço, apelam para o sensacionalismo”, reclamou, citando como exemplo uma capa da revista Veja na qual um urso polar, em cima de uma placa de gelo, está isolado em alto mar. “Antigamente funcionava, mas já houve tanta coisa chocante saindo na mídia que as pessoas não ligam mais.”

Quando descobriu que duas das alunas trabalhavam com jornalismo científico, ele fez questão de se retratar. “É um campo muito interessante de atuar, além de não ter muita gente especializada”, tranquilizou, com medo de ter desestimulado as jovens. Em seguida, meus palpites sobre ele não ser carioca se confirmaram: “Quer dizer, no Rio já não sei por que moro aqui há dois anos e parece que tem um jornalista por metro quadrado nessa cidade.”

Apesar do clima leve, faltou tranquilidade às histórias contadas pelo oficineiro. “Você já foi ameaçado?”, perguntou alguém da miniplateia. Ele respondeu que sim: as denúncias são frequentes nas pautas ambientais e, segundo ele, envolvem pessoas perigosas e, muitas vezes, poderosas. “Na Amazônia, morrer é comum”, disse, em alusão à fala da ruralista Kátia Abreu. “E em Alagoas é tão violento que em vez de bala perdida, é facão perdido.”

Com pouco mais de duas horas, todos concordaram em terminar o primeiro encontro – as oficinas tinham carga horária prevista de três horas. A promessa é a de que no sábado haverá a exibição de um filme e a presença de uma convidada misteriosa. “Mas antes rola uma praia, né?”, sugeriu o professor. “Ouvi dizer que amanhã vai ser um dia lindo, um calorão daqueles.”



Internet ainda não democratiza informação


S´bado, 5 de novembro de 2011 – 12:51


Pesquisadoras afirmam que a rede pode democratizar, mas ainda é muito excludente

por Marcelle Felix

foto: Mathilde Molla

Pensando as redes sociais como meio alternativo de comunicação, os pesquisadores da sessão nove das Comunicações Livres questionaram até que ponto os blogs são de fato um instrumento para a democratização da informação. A mesa, que aconteceu na tarde desta sexta-feira, apontou que as mídias digitais também podem ser excludentes.

Para Eveline Gonçalves, mestranda da UFPE, o blog possibilita uma maior liberdade de expressão, a partir do momento em que um grande número de pessoas – embora ainda não sejam todos – tenham acesso à internet. “Existe um problema, no entanto, que é o fato do leitor muitas vezes não saber diferenciar opinião de notícia”, explicou. “Ele parte do pressuposto de que o que ele lê é embasado em alguma pesquisa.”

Para ela, o blogueiro passou a ser um líder de opinião, posição antes ocupada pelo jornalista, até o processo de industrialização das redações. “O leitor escolhe o blogueiro para, através dele, ter uma visão do mundo”, sublinhou. Mas lembrou que não são todos que são ouvidos. “Não é porque uma pessoa faz um blog que ela vai ter esse poder de influência”, apontou.

As mestrandas Cândida de Oliveira e Janara Nicoletti, da UFSC, informaram que um documento do Intervozes cita a internet como melhor forma de democratização da informação. As duas lembraram, no entanto, que não são todos que têm acesso à rede. “Ainda existe um oligopólio da mídia”, disse Janara, que ressaltou a importância de sites alternativos. “A mídia é muito genérica e factual, mas recebe oposição na internet”, completou Cândida.

A jornalista Joana Ziller, que também coordena o curso de jornalismo multimídia da UFOP, explicou que um blogueiro não é formado pela faculdade de jornalismo e que isso é um problema no âmbito da “pesquisa do conteúdo”. No entanto, o escritor se permite inovar e interagir com o seu leitor, o que não seria mais uma característica do jornalista.



‘Informar é basicamente conscientizar’


S´bado, 5 de novembro de 2011 – 00:28


Oficina de comunicação de risco discute casos da Revolta da Vacina à gripe suína

por Guilherme Melo

foto: Guilherme Melo

“Porque vocês escolheram esta oficina?”  Essa foi a pergunta feita por Ricardo Cabral às oito pessoas presentes no Laboratório de Rádio da CPM. Depois de se apresentar, o bolsista do PET-ECO quis saber o que as havia motivado a participar da oficina de Comunicação de Risco e Gestão de Catástrofes na tarde desta sexta-feira. Dos nove inscritos no site, apenas quatro haviam aparecido.

Barbara Souza, aluna de graduação do primeiro período da UFRJ, conveceu três colegas de turma a participarem da oficina, que se inscreveram na hora. Raphaella Arrais, também do primeiro período, interessou-se pelo tema e fez o mesmo. Eric Andriolo, do 3º período, inscreveu-se pelo site, pois a achou a de título mais interessante. Monique Machado, do 8º período de Jornalismo da Puc-Rio, imaginou que haveria algo relacionado a comunicação em situação de risco, enquanto a jornalista Gloria Galembeck, oficial da Força Aérea Brasileira, disse que seria uma oportunidade de ter uma abordagem acadêmica sobre um conhecimento vivenciado na prática.

Por meio de um powerpoint, Ricardo fez uma abordagem teórica sobre o tema, deixando para o segundo dia uma atividade prática. “O que deveria ser nem sempre é o que é”, lamentou, sobre o descompromisso da mídia com o papel social da comunicação hoje. Para ele, deve-se considerar a ética e a responsabilidade como elementos inseparáveis e indissociáveis, pensando sempre também no contexto de vida e nos hábitos de cada população, seu repertório cultural, que é diferente em cada lugar.

Ricardo atentou também para o papel da informação em situações de crise: “Ela só se efetiva se provoca redução de incerteza no receptor e facilita a sua tomada de decisão.” Ele explicou que o receptor é um protagonista histórico singular que possui um importante papel na equação comunicacional. “Informar é basicamente conscientizar”, afirmou. Apresentando o conceito e o objetivo da comunicação de risco, usou a Revolta da Vacina como exemplo de gestão de crise mal sucedida. Afinal, a escassez de informação fornecida à população sobre a política de saúde pública, considerada invasiva e repressiva, gerou instatisfação social.

Ricardo falou da difculdade de se lidar com catástrofes em função de sua imprevisibilidade e fez questão enfatizar a responsabilidade da mídia, que não deve ter uma cobertura sensacionalista. Para ele, deve haver uma cooperação entre o governo, a comunidade científica e a população em prol do bem comum em situações de crise.

Depois de toda a fundamentação teórica apresentada, com dicas de planejamento e maneiras apropriadas de comunicar, abriu-se um momento de debate, e os casos da gripe suína, do 11 de setembro e do Antraz, com seus erros e acertos, entraram em discussão. No sábado, os participantes serão divididos em dois grupos, um de jornalistas e outro de assessores de imprensa, para simularem uma gestão de crise a partir da dengue, que promete ter a maior epidemia da história no próximo verão.



Bruns explica revolução dos ‘gatewatchings’


Sexta, 4 de novembro de 2011 – 22:21


Para Antoun, redes trouxeram revolução nos conceitos de público e privado

por Gabriela Pantaleão e Raphaella Arrais

foto: Mathilde Molla

Faltou lugar no segundo painel da SBPJor para uma plateia ansiosa pela combinação entre o pesquisador australiano Axel Bruns, da Queensland University of Technology, e o professor da UFRJ Henrique Antoun. Os dois trabalharam a nova conformação sociocultural trazida pelo jornalismo colaborativo das redes sociais e Burns explicou seus famosos conceitos de gatekeeping e gatewatching.

Axel Bruns apresentou o conceito de gatewatching, em contrapartida ao modelo tradicional de jornalismo, o gatekeeping. O modelo tradicional enfrenta dificuldades como a escassez de informação, canais e profissionais qualificados, o que, segundo Burns, o levará ao seu fim. Na tradução, ao pé da letra, o termo significaria “guardador de portão”, e a alusão é a um modelo em que a informação e as notícias são controladas e passadas apenas pelos meios tradicionais, no qual o público não tem direito de participação.

Com a internet e as mídias sociais, o gatewatching cresce a passos largos, é a ascensão do web jornalismo, no qual o público pode colaborar na produção da informação. “É um jornalismo de baixo para cima, democrático. As pessoas são consumidoras e produtoras ao mesmo tempo”, explicou. Ele deu o exemplo de dois sites: a Wikipedia, no qual os próprios leitores produzem a informação, editam e revisam; e o GuttenPlagWiki, um site alemão onde o público faz análises sobre a tese de doutorado de um político, acusado de plágio.

E nesse ambiente de borbulhar de informações que a sociedade se encontra, os usuários da internet trabalham juntos numa mesma matéria, se unem pelos temas de interesse. Burns lembrou o caso do Tsunami no Japão, em março deste ano. Os tweets bateram recorde e a rede social era a forma mais rápida de divulgar e obter informações. “É um fluxo incontrolável de informações”, caracterizou o pesquisador.

Apesar do grande crescimento, a maioria dos profissionais que se dedicam ao gatewatching por meio de blogs e sites informais são considerados amadores e fracassados pelos jornalistas mais tradicionais. Bruns explicou que o gatewatching dá oportunidade para os jornalistas profissionais terem uma marca pessoal, além de se envolverem ao máximo na curadoria das informações e não precisarem se preocupar tanto com a disseminação de suas notícias.

Já o professor Henrique Antoun trabalhou os conceitos de conhecimento, informação e verdade nas transformações jornalísticas hoje. Para ele, a internet teria dado lugar a um superpanóptico, onde tudo pode ser vigiado e fuxicado. “Quanto mais se vigia e se recolhem dados, mais aumenta-se o perigo de vazar informações”, afirmou o professor, que acredita também que foi nessa nova fase que perdemos nossa privacidade.

Auntoun comentou o caso do jornalista e ciberativista australiano Julian Assange, um dos nove membros do conselho consultivo do WikiLeaks, que é também o principal porta-voz do website. Após a divulgação de documentos sobre o exército e o governo americano, Assange começou a sofrer uma série de acusações. Para o professor, o vazamento tem o poder das políticas da verdade. Há uma contradição, já que os arquivos abertos deveriam auxiliar os agentes oficiais, mas acabam favorecendo o público.

O que diferencia, segundo ele, o público do privado é a liberdade de se expressar, e é exatamente isso que a internet nos possibilitaria hoje. Somos capazes de compartilhar as informações que queremos”, explicou. “É dessa forma que o papel do jornalista é questionado, porque a função do jornalista é divulgar a informação com veracidade, mas vemos que é preciso um vazamento a partir de informações compartilhadas em rede para que isso aconteça.”



Mc Fiell: ‘Não acredito em democratização’


Sexta, 4 de novembro de 2011 – 20:05


Criminalização da rádio Santa Marta mostra jogo de poder das concessões públicas

por Nathalia Levy

foto: Carolina Carvalho

Em uma parceria entre a SBPJor e a Meio a Meios, a semana de jornalismo da UFRJ, a pré-abertura do encontro ficou a cargo da mesa “Jornalismo e Mídias Digitais: resistências possíveis na web 2.0”. Um dos convidados, Viktor Chagas, coordenador editorial do Overmundo e professor da UFF, disse ter sentido “leve desconforto” com o título, pois o termo resistência transmite a ideia de oposição, e no chamado “jornalismo cidadão” não há uma oposição e sim um complemento. “Quem está resistido para mim, são os meios tradicionais de comunicação e não os alternativos”, sublinhou Viktor.

O professor defendeu que um jornal comunitário colaborativo é uma forma eficaz de trabalhar a identidade das comunidades, como é o caso dos “mareenses”, da Maré, um bairro que criou seu próprio gentílico. Daí a importância do jornalismo cidadão, em que há cada vez mais gente falando, cada um entendendo a notícia de uma forma diferente. “Mudam até mesmo os critérios de noticiabilidade”, concluiu.

Emerson Claudio Nascimento, mais conhecido como o “reper” Mc Fiell – ele prefere abrasileirar a palavra – foi outro convidado da mesa. A rádio tinha mais de trinta programas feitos pelos moradores, antes de seu fechamento pela Anatel no último 3 de maio, dia internacional da liberdade de imprensa. A agência alega que a rádio não tinha licença, mas Fiell disse que estava em tramitação. “Nós fomos criminalizados, o direito de se comunicar, que está previsto na Constituição, não existe na prática para nós”, lamentou.

Ele apontou ainda que a burocracia para concessão é imensa e que a denominação de “rádio pirata” é outra forma de criminalizar. Fiell contou que as transmissões tratavam de assuntos interessantes aos moradores, como a dificuldade de ter uma alimentação saudável ganhando um salário mínimo e o projeto da retirada das casas do pico do morro por conta das Olimpíadas. “Qual é o tema mais importante? A doença do cantor Luciano ou a remoção das favelas? Nós fazemos uma comunicação direcionada”, afirmou, sem ignorar a importância da enfermidade do artista.

O terceiro e último participante da mesa, que foi mediada pela professora da UFRJ Cristina Rego Monteiro, foi Vito Giannotti, um italiano bem brasileiro que vive no Rio de Janeiro há 20 anos. Um dos fundadores do Núcleo Piratininga de Comunicação, ele é especialista em comunicação e trabalhadores. “Quero acabar com dois mitos da nossa sociedade”, disparou, logo no começo de sua fala. O primeiro a ser desvendado foi a a mídia. De acordo com ele, existem duas mídias que correspondem a dois projetos distintos. A primeira desejaria manter o país dividido em “casa grande e senzala”, enquanto a segunda almeja “uma casa suficientemente grande para todos”.

A senzala, de acordo com ele, seriam os 61% da população brasileira que ganham até um salário mínimo (545 reais) e que, de acordo com Vito, não têm o direito de se comunicar. “São economicamente pobres, porém politicamente brilhantes”, explicou entusiasmado. “O Brasil é rico, o quinto homem mais rico do mundo [Eike Batista] está aqui. Somos ricos em minérios, água e alimentos, porém toda a riqueza está concentrada.”

O mito da neutralidade da mídia foi o segundo a ser derrubado. “A mídia é um instrumento de poder, sendo assim, não pode ser neutro”, disparou. A relação entre mídia e hegemonia é clara para Vito: a hegemonia tem duas pernas, a força – que seriam leis e instituições – e o conhecimento, que estaria ligada à comunicação, entre rádio, filmes, música e internet.

Perguntado sobre as diferenças entre as plataformas, ele foi taxativo. “Na luta para democratizar a comunicação vale tudo, não há melhor ou pior em relação a jornalismo impresso ou digital”, defendeu Vito. “No Santa Marta, por exemplo, o rádio funciona melhor.”

“Eu não acredito em democratização”, desabafou Fiell, perguntado sobre o potencial das novas mídias. Ele explicou que na favela nem todos têm condições de acessar à internet. “Temos que fazer do nosso jeito, para o nosso povo. A mídia não é democrática e nem contempla a nossa sociedade.”



Palácios: desafio é manter imenso acervo de memória


Sexta, 4 de novembro de 2011 – 11:33


Já Pavlik diz que redes contribuem para formação de ‘hyperlocal journalism’

por Guilherme Melo e Marina Lemos

foto: Mathilde Molla

Para um auditório lotado, os pesquisadores John Pavlik (State University of New Jersey) e Marcos Silva Palácios (UFBA), mediados por Raquel Paiva (UFRJ), analisaram o papel e as consequências das novas mídias no primeiro painel da SBPJor, nesta quinta-feira. Enquanto Pavlik sublinhou a importância do jornalismo para a democracia no contexto do hiperlocal, Palácios alertou para o crescimento da memória coletiva com as redes sociais. Devido à incapacidade de abrigar todo o público, o debate também pôde ser assistido ao vivo em uma projeção no auditório da CPM.

Para Pavlik, as novas tecnologias alteraram profundamente a produção jornalística. Segundo ele, existe um crescimento na produção midiática vinda das mídias sociais e um declínio na que vem dos meios de comunicação tradicionais. Uma prova disso seria a drástica redução, nos últimos anos, de suas receitas publicitárias, enquanto empresas como Google e Facebook viram seus contratos aumentarem.

Para o professor, a grande quantidade de informações que surgem com a participação civil permite uma descentralização e, também, uma democratização. “Existe hoje um diálogo entre imprensa e público. Afinal, todos estão conectados o tempo inteiro e dispostos a compartilhar arquivos, vídeos, mensagens e fotos”, explicou Pavlik. “O jornalismo tem desempenhado um papel central na democracia.”

Pavlik mostrou o site Patch.com, que abriga 800 comunidades dos Estados Unidos, como um exemplo de hyperlocal journalism. A página é uma plataforma voltada para a divulgação de notícias locais por meio de freelancers e vem crescendo nos últimos anos. Qualquer um pode ser um repórter, documentando o que está acontecendo ao seu redor e compartilhando na rede.

Marcos Palácios, por sua vez, ressaltou a importância da memória como elemento essencial para o jornalismo. “A memória jornalística sempre foi um insumo bruto para a história, um primeiro rascunho, e, junto a outras instituições sociais, um elemento fundamental da formação da memória coletiva”, apontou. Segundo ele, as mídias digitais e sua disponibilidade de espaço e múltiplas plataformas potencializaram a construção da trama da narratividade jornalística. Para o professor, a memória serve como ponto de comparação entre eventos presentes e do passado, “como uma oportunidade de analogias e um convite à nostalgia”. Ele diferencia, no entanto, a atividade jornalística do simples testemunho.

Palácios considera ainda que a memória dos leitores, junto com a informação jornalística, configura e fortalece um novo gênero jornalístico. Com o desenvolvimento tecnológico, cresceu a memória da mídia e a facilidade de acesso a ela, o que permitiu a formação de arquivos pessoais de material jornalístico pelos leitores por meio de clipagem.

Ele alertou também para o perigo da persistência e da multiplicação da memória. Afinal, uma pessoa que tenha sido acusada ou condenada, mesmo já estando em liberdade, continua com os mesmos status nessa memória produzida pela mídia. “Alguém já viu algum jornal anunciar a soltura de alguém?”, perguntou para a plateia, dizendo que os jornais só noticiam a prisão. “Manter o imenso acervo de memória que está sendo criado pelo jornalismo nas novas mídias é um desafio.”



Futuros jornalistas colocam ética profissional em pauta


Quinta, 3 de novembro de 2011 – 22:39


Uso de câmeras escondidas é questionado, enquanto blog da Petrobrás recebe elogios

por Nathalia Levy

foto: Mathilde Molla

Na sessão três do Encontro de Jovens Pesquisadores, alunos do Maranhão, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina que apresentaram pesquisas com um tema em comum: a ética jornalística. Sob mediação da professora da UFRJ Beatriz Becker, eles colocaram em cheque o atual papel do jornalista, quando novas tecnologias parecem competir com os tradionais veículos de comunicação. Nas pesquisas, apareceram também críticas à importância dada aos interesses políticos, empresarias e pessoais nas notícias em detrimento do compromisso público.

O trabalho “Dilemas editorias e ética jornalítica”, da aluna Thais Ribeiro (UFJF), discutiu o uso da câmera escondida para desencadear o debate sobre a utilização de “processos duvidosos” na hora de conseguir um furo de reportagem. Em uma matéria do programa “Fantástico”, além da câmera escondida, jornalistas pagam propina à policiais, compram drogas ilíticas e chegam a se disfarçar – uma das atitudes mais criticadas.

Em outra reportagem da Folha de S.Paulo sobre escolas, Thais explicou que o repórter acabou virando personagem da própria história, chegando a transformá-la de acordo com seus interesses. “A pesquisa serve para repensar os valores da profissão. Hoje em dia, com o diploma desvalorizado, os jornalistas pensam que podem fazer tudo”, concluiu.

Outro tema presente na maioria dos trabalhos foi a não preocupação dos jornais em buscar diferentes fontes como forma de dar maior veracidade às noticias. O assunto foi bastante explorado na pesquisa de Caio Cardoso, também da UFJF, sobre o livro Rota 66, de Caco Barcellos. Nele, o jornalista expõe casos polêmicos noticiados pela grande mídia a partir do ponto de vista daqueles que não tiveram voz na época.

Já na pesquisa de Cecília Medeiros, da Unisinos, a própria fonte estaria ganhando “independência” para produzir e divulgar suas informações. É, segundo ela, o que aconteceu na disputa entre a Petrobrás e a Folha de S.Paulo, com a criação do blog da petroleira. A empresa usou a página como defesa das acusações feitas por jornais, divulgando as entrevistas concedidas aos veículos antes de serem oficialmente publicadas. “Inicialmente, concordava com aqueles que eram contra a Petrobrás, mas depois vi que é uma nova maneira de quebrar barreiras, o lugar de fala não é exclusivo do jornalista”, concluiu.



Subjetividade ou intencionalidade?


Quinta, 3 de novembro de 2011 – 22:22


Caso Realengo e cobertura do sertão nordestino revelam jogo de interesses na mídia

por Andressa Guerra

A interferência de emoções e interesses pessoais na atividade jornalística foi o ponto de união dos trabalhos apresentados durante a sessão um do Encontro de Jovens Pesquisadores nesta quinta-feira. Os alunos, vindos de diferentes locais do país, questionaram a validade e o limite da subjetividade nas matérias da mídia brasileira.

As alunas Allana Vieira e Roberta Braga da UFJF analisaram a cobertura, pelo telejornal “Repórter Brasil”, do massacre de Realengo de abril deste ano, no qual doze crianças foram mortas. Segundo elas, acontecimentos trágicos como esse afetam a sociedade de tal maneira que exigem coberturas especiais. Nesses casos, entretanto, as matérias correm grande risco de se tornarem muito frias ou sensacionalistas.

“A cobertura do programa não pecou nesses excessos, mas, por ser em uma emissora estatal, refletiu interesses governamentais”, apontaram. “O jornal, a partir do massacre, produziu matérias sobre desarmamento e segurança nas escolas que soaram um pouco como campanhas.”

O trabalho de Fernanda Deiró, da Unijorge, também denunciou os de um setor da sociedade na veiculação de informações. No artigo sobre a construção do imaginário do sertão, a aluna destacou que a concepção mais comum e difundida pela mídia  é a de seca, tristeza e sofrimento. Sua pesquisa partiu desse senso comum para questionar se as matérias divulgadas na mídia estavam sendo fiéis à realidade. Para isso, procurou saber dos próprios sertanejos a visão que tinham deles mesmos.

“O resultado foi surpreendente”, disse Fernanda. “Eles não queriam ser vistos, de jeito nenhum, como coitadinhos”. A pesquisa, então, tomou rumos completamente diferentes. “O trabalho se transformou em um documentário positivo e alegre sobre os sertanejos, suas lendas e histórias”, afirmou.

A mediadora da mesa Joëlle Rouchou, da Casa de Rui Barbosa, chamou a atenção, no entanto, para a intenção por trás da representação sertaneja. “As duas imagens do sertão são mentirosas”, afirmou. “Enquanto a grande mídia quer rotular o povo como sofredor, os sertanejos querem passar uma falsa imagem de só alegria e felicidade.”



Uso da internet não traz só benefícios ao jornalismo


Quinta, 3 de novembro de 2011 – 22:09


Mídias digitais não alteram quadro de concentração nos veículos de massa

por Carolina Carvalho

A busca pela originalidade e pela qualidade de que os profissionais precisam em um jornalismo cada vez mais multimídia e cheio de publicações foi o principal assunto da mesa quatro do Encontro de Jovens Pesquisadores nesta quinta-feira.

O público-alvo, apesar de ser, teoricamente, o foco do conteúdo de um jornal impresso, não é a única preocupação na hora de pensar as notícias, como mostroua pesquisa de Aline Louise Araújo, da UFMA. “Há vários agentes envolvidos no processo jornalístico, entre eles as fontes, os leitores, os anunciantes, os jornalistas e o próprio jornal enquanto instituição”, explicou. “A tentativa de conciliar a divergência de interesses entre eles é um dos principais esforços necessários a quem trabalha na área.”

Isabel Carmo, da UFC, aproveitou o gancho e problematizou o crescimento do jornalismo online, possibilitado pelo surgimento de cada vez mais recursos tecnológicos como a internet móvel e os tablets e netbooks. “Ao contrário do que diz o senso comum, o uso da internet não trouxe apenas benefícios à profissão”, revelou.

De acordo com a aluna, a necessidade de ser um profissional multimídia faz com que o tempo para se dedicar a uma pauta seja curto. Muitas vezes, o jornalista precisa fotografar, editar vídeos e atualizar redes sociais, além, é claro, de escrever. A internet teria levado também a uma quebra de limites entre os amadores e os profissionais, já que existe a possibilidade de qualquer pessoa publicar seu conteúdo em plataformas como blogs.

Glaucione Pedrozo, da UFMA, apresentou outro aspecto da profissão, não só em tempos digitais: seu posicionamento em relação à democracia. A comunicação de massa, segundo ela, deveria ser um meio de participação política para o povo, mas isso não acontece. “No Maranhão, a maior parte dos meios pertence à família Sarney, e quase não há oposição”, contou a maranhense.

Para o coordenador da mesa, o professor da Ufes Victor Gentilli, apesar das dificuldades que o trabalho jornalístico enfrenta, ele não está em decadência, mas em modificação. “Na era da digitalização, em que há mais possibilidades de se fazer jornalismo e de participar dele enquanto público, é preciso repensar os modelos tradicionais de transmitir informação e atuar, sobretudo, com ética”, concluiu.